Estudo de caso no PTW: cabine primária de 13,8 kV
Uma instalação de demonstração montada e calculada pela IFELL no PTW, com licença original da SKM. Aqui está o que um estudo elétrico entrega: os números, os problemas que aparecem e o ajuste que resolve cada um.
Instalação fictícia, criada para demonstração, com valores redondos. Nenhum dado aqui é de cliente.
A instalação
A entrada é em 13,8 kV pela Enel, com 10 kA de curto trifásico no ponto de entrega. Na cabine, um relé com funções 50/51 e 51N comanda o disjuntor geral de média tensão. Um transformador de 1.000 kVA, com 5 % de impedância, alimenta o QGBT em 380 V, protegido por um disjuntor de 1.600 A com disparador eletrônico.
Do QGBT saem três circuitos: o CCM, com um motor de 110 kW e mais 120 kVA de cargas, o quadro de ar condicionado, com 150 kVA, e o de luz e tomadas, com 90 kVA.
Curto-circuito
O cálculo segue a IEC 60909, com fator de tensão de 1,10 na média tensão e de 1,05 na baixa. O motor do CCM entra com a contribuição que a norma manda considerar. No QGBT, o curto trifásico chega a 31,3 kA, com pico de 68,9 kA.
| Barra | Tensão | Ik″ (kA) | ip (kA) |
|---|---|---|---|
| ENEL-PE | 13,8 kV | 10,04 | 24,76 |
| CABINE-MT | 13,8 kV | 9,88 | 23,39 |
| TR-01-AT | 13,8 kV | 9,85 | 23,08 |
| QGBT | 380 V | 31,34 | 68,89 |
| CCM-01 | 380 V | 21,94 | 38,13 |
| QAC-01 | 380 V | 15,95 | 28,66 |
| QDL-01 | 380 V | 10,61 | 18,01 |
Refizemos o cálculo no pandapower, um programa aberto que também segue a IEC 60909, e a diferença ficou abaixo de 0,01 % em todas as barras. Conferir o modelo por outro caminho faz parte do método.
Os disjuntores aguentam o curto?
O PTW compara a capacidade de interrupção de cada disjuntor com o curto no ponto onde ele está instalado. Dois disjuntores do QGBT têm 25 kA, e a barra tem 31,3 kA. Num curto franco perto do QGBT, eles podem não interromper a falta.
| Disjuntor | Capacidade (Icu) | Curto no ponto | Uso | Situação |
|---|---|---|---|---|
| DJ-GERAL-QGBT | 42 kA | 31,9 kA | 76 % | Atende |
| DJ-CCM-01 | 36 kA | 31,9 kA | 88 % | Atende |
| DJ-QAC-01 (antes) | 25 kA | 31,9 kA | 127 % | Não atende |
| DJ-QDL-01 (antes) | 25 kA | 31,9 kA | 127 % | Não atende |
| DJ-QAC-01 e DJ-QDL-01 (depois) | 36 kA | 31,9 kA | 88 % | Atende |
O curto no ponto é a corrente de interrupção que o PTW usa para disjuntores de baixa tensão, 31,9 kA, um pouco acima do Ik″ de 31,3 kA. A correção é trocar os dois disjuntores por modelos de 36 kA da mesma linha. A corrente de pico fica em 93 % da capacidade de estabelecimento: atende, com margem pequena, e o relatório registra isso.
Fluxo de carga
Com as cargas na demanda, o transformador opera com 477 kVA, 48 % da potência nominal. A maior queda de tensão, no quadro de luz e tomadas, é de 2,8 %, longe dos 7 % que a NBR 5410 admite para instalação com subestação própria.
| Ponto | Tensão | Queda | Carga |
|---|---|---|---|
| Entrada (ENEL-PE) | 0,999 pu | 0,1 % | 410,8 kW e 243,2 kvar, FP 0,86 |
| TR-01 | – | 1,6 % | 477 kVA (48 %) |
| QGBT | 0,983 pu | 1,7 % | 726 A |
| CCM-01 | 0,976 pu | 2,4 % | 352,6 A |
| QAC-01 | 0,974 pu | 2,6 % | 234,1 A |
| QDL-01 | 0,972 pu | 2,8 % | 140,7 A |
O que chama atenção é o fator de potência na entrada: 0,86. A distribuidora cobra o reativo excedente abaixo de 0,92. Um banco de capacitores de cerca de 110 kvar no QGBT leva o fator de potência a 0,95; o banco é dimensionado à parte, com medição.
Coordenação e seletividade
O coordenograma põe na mesma escala de corrente, referida a 380 V, as curvas do relé da cabine, do disjuntor geral e do disjuntor do CCM, a curva de dano do transformador e a partida do motor. Para cada corrente de falta, o primeiro a atuar deve ser o dispositivo mais perto da falta.
Com os ajustes iniciais, o coordenograma mostra dois problemas:
1O curto retardado do disjuntor geral, em 3 × Ir, atua de 4,1 a 5,0 kA com a tolerância. Essa faixa cai dentro do instantâneo do disjuntor do CCM, de 3,3 a 5,5 kA. Uma falta de 5 kA no circuito do CCM pode abrir o geral e apagar o QGBT inteiro.
2A curva do relé da cabine atravessa a faixa do disjuntor do CCM entre 2,3 e 3,9 kA. No curto máximo do QGBT, a folga entre o relé e o geral é de 0,13 s, pouca para um relé de sobrecorrente.
Os ajustes
| Dispositivo | Ajuste | Antes | Depois |
|---|---|---|---|
| Relé da cabine, fase | Partida (Is), TC 100/1 | 0,5 In = 50 A | 0,6 In = 60 A |
| Relé da cabine, fase | Curva | muito inversa, 0,6 s | sem alteração |
| Relé da cabine, fase | Instantâneo (I>>) | 10 In = 1.000 A | sem alteração |
| Relé da cabine, neutro | Iso / Io>> | 0,1 Ino, 0,3 s / 2 Ino | sem alteração |
| Disjuntor geral do QGBT | Longo retardo | 0,95 × 1.600 A, 16 s | sem alteração |
| Disjuntor geral do QGBT | Curto retardado (Isd) | 3 × Ir | 6 × Ir |
| Disjuntor geral do QGBT | Tempo (tsd) | 0,2 s | sem alteração |
| DJ-QAC-01 e DJ-QDL-01 | Capacidade | 25 kA | 36 kA |
Com o curto retardado do geral em 6 × Ir, entre 8,2 e 10 kA, o disjuntor do CCM elimina sozinho as faltas no seu circuito. A partida do relé da cabine sobe de 0,5 para 0,6 In, 1,4 vez a corrente nominal do transformador, e a folga sobre o geral no curto máximo passa a 0,2 s.
3Sobra um trecho: faltas de 3 a 4,8 kA no circuito do CCM ainda podem ser eliminadas pelo relé da cabine antes do disjuntor do CCM. São faltas de baixa corrente, no fim do circuito. Afastar mais a curva do relé resolveria, mas aumentaria a energia incidente no lado de linha do disjuntor geral, como mostra a seção seguinte. O estudo registra a escolha e o motivo.
O relé de neutro fica fora do coordenograma de fase. Ele só enxerga faltas à terra na média tensão: o enrolamento em triângulo do transformador não deixa passar a corrente de sequência zero de uma falta na baixa tensão.
Arco elétrico
A energia incidente foi calculada pela IEEE 1584-2018, com as correntes de curto da IEC 60909 e o tempo de atuação de cada dispositivo lido da sua curva. A distância de trabalho é de 457 mm na baixa tensão e de 914 mm na média.
| Ponto | Curto de arco | Quem elimina | Tempo | Energia antes | Energia depois |
|---|---|---|---|---|---|
| Entrada da cabine (antes do relé) | 9,40 kA | proteção da Enel | 2 s (adotado) | 22,8 cal/cm² | 22,8 cal/cm² |
| CABINE-MT | 9,25 kA | relé da cabine | 0,075 s | 0,85 cal/cm² | 0,85 cal/cm² |
| QGBT, lado de linha do geral | 17,6 kA | relé da cabine | 0,70 → 0,86 s | 29,5 cal/cm² | 35,9 cal/cm² |
| QGBT, barramento | 20,2 kA | DJ-GERAL-QGBT | 0,20 s | 9,6 cal/cm² | 9,6 cal/cm² |
| CCM-01 | 15,0 kA | DJ-CCM-01 | 0,02 s | 0,71 cal/cm² | 0,71 cal/cm² |
| QAC-01 | 11,0 kA | DJ-QAC-01 | 0,02 s | não vale* | 0,51 cal/cm² |
| QDL-01 | 7,3 kA | DJ-QDL-01 | 0,02 s | não vale* | 0,33 cal/cm² |
* Enquanto os disjuntores de 25 kA estiverem lá, a etiqueta desses dois quadros não vale. O cálculo supõe que o disjuntor interrompe a falta, e ele não tem capacidade para isso. O PTW marca esses pontos com o aviso de que o resultado de arco não se aplica.
O barramento do QGBT fica em 9,6 cal/cm², porque o disjuntor geral abre em 0,2 s. O ponto mais perigoso da instalação é outro: o lado de linha do disjuntor geral, entre os terminais do transformador e o disjuntor. Uma falta ali não passa pelo geral, e quem a elimina é o relé da cabine, pela curva inversa. Com os ajustes iniciais a energia é de 29,5 cal/cm². Com os ajustes de seletividade o relé fica mais lento, e ela vai a 35,9 cal/cm².
Por isso o estudo recomenda trabalhar nesse compartimento só com o QGBT desligado pela cabine. Para quem precisa intervir com o quadro energizado, a saída é um relé de arco, com sensor ótico no QGBT, abrindo o disjuntor da cabine: a falta seria eliminada em menos de 0,1 s e, pela mesma conta, a energia ficaria perto de 4 cal/cm², sem mexer na seletividade.
A entrada da cabine, antes do relé, depende da proteção da Enel. Sem o tempo informado pela distribuidora, o estudo adota 2 s, o limite da IEEE 1584, e a energia chega a 22,8 cal/cm².
- Equipamento
- QGBT – barramento
- Tensão nominal
- 380 V
- Energia incidente
- 9,6 cal/cm²
- Distância de trabalho
- 457 mm
- Fronteira de arco
- 1,68 m
- Vestimenta
- ATPV mínimo de 12 cal/cm²
- Zona de risco (NR-10)
- 0,20 m
- Zona controlada (NR-10)
- 0,70 m
- Curto franco
- 31,3 kA
- Eliminação
- 0,20 s – DJ-GERAL-QGBT
Conclusões do estudo
- Trocar DJ-QAC-01 e DJ-QDL-01 por disjuntores de 36 kA. Até a troca, a etiqueta de arco desses quadros não vale.
- Passar o curto retardado do disjuntor geral para 6 × Ir e a partida do relé da cabine para 0,6 In.
- Aceitar a seletividade parcial entre o relé da cabine e o disjuntor do CCM para faltas de 3 a 4,8 kA, pelo motivo da seção de seletividade.
- Tratar o lado de linha do disjuntor geral, com 35,9 cal/cm², como serviço desenergizado, ou instalar relé de arco.
- Corrigir o fator de potência de 0,86 com um banco de cerca de 110 kvar.
O que o cliente recebe
Relatório técnico com ART, no modelo da IFELL: premissas, resultados, não conformidades com prioridade e prazo, e conclusões. Junto vão o unifilar com os resultados, os coordenogramas de fase e de neutro, a tabela de ajustes pronta para parametrizar os relés e as etiquetas de arco de cada quadro. Os estudos são feitos no PTW, com licença original.
Perguntas Frequentes
O que é um coordenograma?
É o gráfico de tempo por corrente, em escala logarítmica, com as curvas de atuação de relés, disjuntores e fusíveis referidas a uma mesma tensão. Para cada corrente de falta ele mostra qual dispositivo atua primeiro. Num sistema seletivo, as curvas não se cruzam: a do dispositivo mais perto da carga fica abaixo e à esquerda das que estão a montante.
Por que nem sempre dá para ter seletividade total?
Porque os ajustes disputam o mesmo espaço no coordenograma. Neste caso, afastar a curva do relé de média tensão para cima resolveria a seletividade com o disjuntor do CCM em faltas de 3 a 4,8 kA, mas o relé ficaria mais lento justamente no ponto em que ele é a única proteção: o lado de linha do disjuntor geral. O estudo mostra os dois lados e registra a escolha.
Por que a energia incidente subiu depois dos ajustes?
Uma falta no lado de linha do disjuntor geral do QGBT só é eliminada pelo relé da cabine. Com o pickup do relé em 0,6 In em vez de 0,5 In, ele leva 0,86 s em vez de 0,70 s para abrir essa falta, e a energia vai de 29,5 para 35,9 cal/cm². O barramento do QGBT, protegido pelo próprio disjuntor geral, continua em 9,6 cal/cm².
Quais dados preciso enviar para um estudo como este?
O que houver: diagrama unifilar, dados de placa dos transformadores, carta da distribuidora com o curto no ponto de entrega, modelos e ajustes de relés e disjuntores, seções e comprimentos dos cabos e as cargas principais. O que faltar, a IFELL levanta na visita ou adota como premissa registrada no relatório.
Quer um estudo assim na sua instalação?
A IFELL faz o estudo completo no PTW, com licença original da SKM: curto-circuito, seletividade, arco elétrico e fluxo de carga, com relatório e ART.
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